Entre o Largo do Paissandu e a Praça Júlio Mesquita, no eixo das avenidas São João e Ipiranga, a cidade construiu a sua Broadway. Palácios de mármore e veludo, ar-condicionado quando isso era espetáculo, pianistas ao vivo e estreias de gala. As famílias vestiam suas melhores roupas para ir ao cinema, e a elite dividia o hall com a classe trabalhadora.
No auge, cerca de trinta cinemas funcionavam simultaneamente na região. Não eram imóveis antigos: eram o palco da memória afetiva de uma metrópole.
Seis palácios tombados, hoje adormecidos, na ordem em que contam a história. Um deles, o Marrocos, mostra os três tempos do projeto: ontem, hoje e amanhã.
A Avenida Paulista atraiu os escritórios. Em 1970, o Minhocão selou a degradação da São João. Para não fechar, muitas salas migraram para a pornografia; outras viraram estacionamentos, igrejas e bingos.
Em 1992, o tombamento protegeu o patrimônio, mas as portas seguiram fechadas. Em 2005, o Ipiranga apagou a última marquise comercial do eixo. O tombamento não é um entrave: é a garantia de que ninguém pode descaracterizar o ativo.
O centro de São Paulo vive o maior ciclo de investimento público em décadas e, ao mesmo tempo, o cinema brasileiro tem seu melhor momento em uma geração. Os dados, todos com fonte:
Abrem o Cine Bijou-Theatre e o Moulin Rouge, no prédio que viria a ser o Cine Olido.
Inaugura o Cine UFA Palace (futuro Arte Palácio), de Rino Levi, com ~3.100 lugares.
Av. São João · Haberkorn / Museu PaulistaSegundo Rino Levi do eixo, no edifício do Hotel Excelsior.
Av. Ipiranga · Haberkorn / Museu Paulista"O melhor e mais luxuoso cinema da América Latina": mármore, fonte de mosaicos, 1.870 poltronas de couro, ar-condicionado.
R. Cons. Crispiniano · Haberkorn / Museu PaulistaO Marrocos recebe o mundo no IV Centenário, com delegações internacionais e astros de Hollywood.
Inauguram o Paissandu (2.196 lugares) e o Olido. A região vive ~30 cinemas simultâneos: a Cinelândia Paulistana.
Largo do Paissandu · Haberkorn / Museu PaulistaO Bandeirantes renasce em estilo colonial, com réplicas de Aleijadinho e piano ao vivo.
A construção do elevado acelera a degradação da Avenida São João.
Salas se dividem, migram para a pornografia ou fecham; viram estacionamentos, igrejas e bingos.
Conpresp (Res. 37/92) e Condephaat protegem as salas: o patrimônio é preservado, mas segue fechado.
Um bingo ocupa a plateia do Paissandu.
Fecha o Cine Ipiranga, o último a exibir circuito comercial no eixo.
A Prefeitura reabre o Olido como Galeria Olido, prova de conceito local.
Galeria Olido, hoje · E. Hayasaka (CC BY-SA)Pacote de incentivos fiscais para retrofit de edifícios no centro.
Três chamamentos da Subvenção Econômica (fundo de R$ 1 bi); Copan e Martinelli em retrofit; 48 edifícios em requalificação.
Público dos cinemas cresce 26% no ano; recorde histórico de salas no país.
Leilão do Centro Administrativo Campos Elíseos (R$ 5,4 bi): 22 mil servidores chegando. Área de incentivos ao retrofit mais que dobra.
Tombados, protegidos, adormecidos, prontos para o próximo ato.
Quem restaurar a Cinelândia entra para a história de São Paulo.
O Kings Theatre, no Brooklyn: palácio de 1929, ~3.600 lugares, fechado em 1977 e abandonado por 37 anos, a mesma trajetória do Marrocos. Restaurado com dinheiro público e operado por consórcio privado, reabriu em 2015 com um show de Diana Ross.
O modelo: dinheiro público destrava, operador privado rentabiliza, o bairro inteiro valoriza. E a Cinelândia tem seis salas, um distrito, não um prédio.
O Cine Marabá (Av. Ipiranga, 757) é a única sala da Cinelândia que nunca saiu do circuito comercial: foram 63 anos ininterruptos até 2007. Restaurado em 2009 com capital 100% privado (cerca de R$ 8 milhões, projeto de Ruy Ohtake e Samuel Kruchin, com o tombamento preservado) reabriu como multiplex de cinco salas e segue funcionando no mesmo edifício do Hotel Marabá (hoje o hotel DELPLAZA, com cerca de 170 quartos em operação). É, na prática, o modelo de uso misto (sala histórica no térreo, hospedagem nos andares) que esta tese propõe, praticamente em frente ao Cine Ipiranga, uma das seis salas do projeto.
A leitura estratégica: um único prédio, com capital modesto e sem plano coordenado, provou que a sala sobrevive e opera neste exato quarteirão. A tese da Cinelândia é o passo seguinte: seis salas, capital estruturado e operação profissional.
E não é caso isolado, a reativação de salas históricas já é tendência nacional:
Seis palácios tombados, cem anos de memória e a janela de investimento mais alinhada que o centro de São Paulo já ofereceu. Esta conversa começa por aqui.